Sou de uma geração que escutava: Mulher não senta assim, não fala isso, não faz aquilo. Por que eu não posso? Porque você é mulher. As pessoas vão falar mal de você, se continuar agindo assim como um homem. Você parece um homem falando desse jeito, seja mais delicada.
Podia sim, desde cedo ir ao salão, pintar as unhas, fazer ballet, tocar piano, lavar a louça, arrumar a casa, se maquiar, se vestir como menina, que significava usar muitos vestidos, roupas combinadinhas e um cabelo arrumado. Cabelo longo, porque curto era de menino.
Nunca aprendi nada sobre carros, mecânica, política, garagens e porões. Eram coisas de menino.
Menino podia brincar na rua, eu porque era mulher não podia, e quando podia, não podia voltar tarde… Quanto podia, não podia, podia, não podia …. kkkkk.
Acho que eu não fui a única que viveu essa diferença de gênero na criação como padrão normal e comum para época.

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Fui ensinada a ser vaidosa como se se arrumar fosse a coisa mais importante da vida. Nasci com uma beleza considerada exótica, o que me levou a ser modelo, desfilar bastante para as boutiques locais até chegar a São Paulo numa agência famosa de modelos.
Mas aí eu pergunto: Com tantas restrições como era possível se sentir segura para conquistar o mundo? Afinal de contas a espontaneidade já tinha sido bloqueada em troca de um comportamento social aprovado.
Minha qualidade mais admirada era ser bonita, alta e magra. E o resto? Nem eu sabia… Não sabia que era inteligente, corajosa, forte, decidida, entre tantas qualidades que tenho descoberto ao longo dessa jornada de autoconhecimento, até ter que enfrentar o mundo aos trancos e barrancos.
Então pautei minha fortaleza na beleza externa e usava essa arma pra me defender de qualquer fragilidade. Usei mesmo!! Era meu poder para abrir portas, conquistar, ser ouvida, me posicionar, me relacionar, me sentir amada e admirada. Precisava do outro pra me dizer quem eu era, me aprovar, me admirar e me dar segurança.
Sempre tentando ser mais linda, jovem, sarada, sem celulites, sem flacidez, sem cicatrizes, estrias, sem vida e sem história. Um medo da desaprovação que me aterrorizou por anos a fio e confesso que ainda não estou 100% livre dele.

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Mas, sentia um vazio de fundo, e não entendia esse vazio e nem me permitia sentir, porque os olhares alheios, ao entrar num restaurante, ou qualquer sinal de um interesse por mim, me anestesiavam e alimentavam minha carência de não ser eu mesma. Essa era minha droga pra me sentir superior e bem, diante de tanto medo da rejeição.
Então cresci assim, sendo a beleza meu referencial de estrutura de base, que alimentava uma falta de mim mesma, e essa máscara me sustentou por muitos anos.
Nunca não fui olhada. Nunca passei despercebida!
Caso clássico, mulher magra, alta e de cabelos longos. Uma típica beleza brasileira. Não precisa nem falar muito, o importante é ser algo pra mostrar. Me senti muitas vezes como um enfeite de mesa, um troféu.
Sempre um engraçadinho tentando achar uma brecha pra se colocar.

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Até que todos já sabem, entro num processo de cura profunda, viajo dentro de mim mesma, fazendo o caminho de volta para meu coração, buscando minha essência desesperadamente e encontro esse vazio, essa tristeza de fundo, que era mesmo a minha ausência.
Durante esse processo de encontrar quem sou eu, o que me faz feliz, tipo “oncoto e oncovo”, começo a me descobrir, me descortinar, a descascar minha própria cebola.
Vou encontrando um monte de dores, mas também um monte de qualidades desconhecidas ao longo dessa jornada.
Tem sido maravilhoso descobrir meus poderes, minhas facetas, passar por tantos desafios. Confesso que as vezes cansa (dá vontade de dizer: Para tudo que vou descer!), mas não sei ficar parada sem me movimentar, acho até que a vida não permite isso, mesmo você sentado no sofá a vida te movimenta, como me disse uma pessoa recentemente.
Passei por diversos lugares, diferentes cursos, processos, até poder me despir.
Tirar o cabelo, foi um ato de me descobrir, descortinar como já falei várias vezes.
Dai me perguntam: Como tem sido isso?
Varias visões diferentes para esse mesmo processo.
Não sou mais tão notada, as vezes até invisível, o engraçado é que continuo com a mesma essência e hoje sou uma pessoa mais interessante que antes. Mas a vida e a sociedade estão acostumados a padrões pré-estabelecidos (daí pensam que sou monja..) e aos olhos comuns não sou mais uma mulher exuberante.
Daí surge outra pergunta: Quem é o tipo de pessoa que olha pra você? Digo: Pessoas que já estão sintonizadas com o coração, que já olham para o ser humano como uma alma em movimento. Esses me enxergam e sentem que estou plena de mim mesma, ou até mesmo percebem meu processo.
É uma transição interessante ver que vivemos em dois mundos entrelaçados e que podemos escolher com qual sintonizar.
Depois de anos de trabalho interno meu ecossistema mudou completamente: amigos, trabalho, vida social, afinidades e a forma de viver a vida.
Hoje, assim como meu cabelo simples, descomplicado, minimalista, levo minha vida escolhendo o essencial. Não quero mais excessos e nem o óbvio, estou sintonizada com a simplicidade das sutilezas.