A vida toda percebo em mim uma tristeza de fundo e não sei do que se trata diretamente.
Mesmo em momentos muito felizes, os mais sonhados pelo desejo de consumo de nossa sociedade, no cenário mais perfeito percebia que ela estava lá. Vou descrever um cenário. Ex: Bali, hotel Armani, um namorado lindo, eu magra, corpo sarado, tomando um drink dos Deuses, com uma vista infinita para o mar, depois de viajar de executiva, que tal? Era pra eu estar na mais perfeita felicidade, certo? Mas não estava, sempre notei um desconforto constante em meu ser, lá no fundo, só eu percebia.
Procurava não dar atenção a essa dor.
E pra isso, me ocupei em ser uma boa aluna, queria sempre tirar acima de oito, depois passar na federal, passei, depois ser modelo, fui, depois ir embora pra são Paulo, pra quem não sabe, sou de João Pessoa, fazer uma faculdade em são Paulo, casar, ter filhos e ser a melhor mãe do mundo, depois separar e manter o padrão de rica. E sempre empreender, empreender, empreender.
Precisava me ocupar até porque fui criada num regime que não fazer nada era coisa de vagabundo e eu me sentia culpada se não tivesse produzindo. Então me acostumei com essa roda viva da ocupação e sempre estava fazendo algo.
Academia as 6 da manhã, trabalho as 9, supermercado no meio, clientes no horário comercial e muitas vezes sábado e domingo, porque tinha tanto trabalho e coisas, que não podia pensar. Mas, a auto observação que aprendi na Gnose, estava na minha vida desde os 25 anos e eu sabia que essa tristeza existia mas, não queria sentir, a rejeitava, a ignorava, não dava atenção a ela.
E a vida foi seguindo, criei três empresas diferentes, sou muito criativa e sempre gostei de me ocupar criando coisas, eu era tipo um coelho sabido como dizia uma pessoa que trabalhou comigo, minha equipe quando era chamada pra uma reunião já sabia, lá vem ela com mais ideias, Jesus pelo amor Andréa, mais essa ideia?!! Era bacana, porque sempre amei o que eu fazia.
Mas eu era uma máquina fazedora, fazer, ler, estudar, aprender, pensar, dançar, sair, festejar, inventar, inventar as modas como dizia minha avó naquele texto que escrevi lá atrás.
Isso não dava espaço pra eu sentir a tristeza.
Enfim… Comecei o tal caminho sabático, indo pelo caminho de Santiago e terminando na Índia e esse caminho que digo que é meu caminho de volta ao coração, me fez ser menos fazedora. Comecei a meditar, acreditem, eu comecei com apenas 10 minutos por dia, e nesses espaços de tempo comecei a me sentir novamente.

 

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Comecei yoga e a sentir meu corpo, desisti da academia de ginástica. Me perguntava pra que eu vou fazer uma coisa que não gosto mais? Estava de saco cheio de ficar 2 horas e meia fazendo um exercício que me fazia enrijecer quando o que eu queria era flexibilizar. Não fazia mais sentido pra mim. Então comecei yoga e a sentir meu corpo, a perceber os medos, especialmente nas posições de risco. Me fez lembrar que essas posições que hoje me assustam eram justamente as que mais amava fazer quando era criança e apenas por diversão. Onde será que eu fiquei nessa parte da minha vida? Onde será que me perdi?
Então pra desistir de ter um corpo rígido, eu precisei me deparar com a escravidão da beleza, do corpo ideal, da bunda perfeita, e aceitar um corpo sem músculos. Hoje sou magra, porque minha tendência natural é ser magra, sem músculos, um tipo esquelético mesmo. Pessoas, eu como! Não adianta vocês fazerem cara de que estou anoréxica achando que eu não como, porque eu como, mas não faço musculação e tenho dificuldade de ganhar músculos. Essa é minha genética e não há nada que eu possa fazer, se quero respeitar a minha vontade. Quero ser flexível, na minha visão de mundo, na minha vida e a primeira coisa que desisti foi ter um corpo rígido a força. Nada contra a musculação, e nada me impede de um dia querer fazer tudo isso de novo.
Seguindo pelo caminho do coração, abri mão de relacionamentos dolorosos, as custas de sofrer, e só no momento que eu me perguntei: Quem sou eu no meio de tantas dores? Porque eles reclamam das mesmas coisas de mim? É que me dei conta que eu alimentava esse monte de relacionamentos que me traziam sofrimentos. Mas até eu perceber que existia uma parte de mim que queria sofrer, eu vivia como vítima e culpava os homens por ter aquele tipo de relação. Escutei coisas do tipo: Eu nunca senti uma raiva dessa por mulher nenhuma antes, mas você me instiga a ser assim com você. Escutei isso de duas pessoas diferentes, então, claro, tomei um susto. E aí a pergunta veio: Que parte de mim instiga isso no outro? Descobri que ao mesmo tempo que eu queria amar, eu queria odiar, e fazia um jogo de dá e tira o tempo todo e a relação era sempre uma gangorra cheia de conflitos e competição.
Saindo dessa destrutividade das relações, percebi que existia muita culpa da educação dos filhos, sempre tinha a impressão que fazia as coisas erradas, especialmente depois que me separei e resolvi ser a adolescente que nunca tinha sido. Então, tive que olhar pra minha criação e para as criaturas que eduquei e rever tudo isso.
Na verdade, quando fui mãe aos 21 anos de idade não tinha a menor capacidade pra isso. Coitada de mim, era mais uma sobrevivente do que mãe, então errei pra caramba, tive medo até dizer basta, e me culpava pelas vezes que não tive paciência e não sabia como fazer. No final das contas, cada filho sobreviveu, são pessoas lindas e acho que me ensinaram muito mais do que eu a eles. Aprendi com meus filhos a amar, a ser menos egoísta, a ter paciência, a ser uma pessoa melhor, a ser menos impulsiva né Vic?, e acima de tudo, a evoluir como ser humano. Mais agradeço hoje, do que me culpo.
Pra ir seguindo o chamado da alma tem sido uma batalha contra tantos egos, dores e crenças sobre a vida que só posso dizer que cada luta dessa, quando a alma vence eu me descasco mais e tenho chegado mais perto do coração.
Depois de tantas descobertas, aqui preste atenção na palavra, descoberta, é tirar a capa que cobre, eu tenho ficado mais exposta a mim mesma.
Tudo isso me levou a entrar em contato mais profundo com a tal tristeza de fundo, porque mesmo com tudo isso sendo descascado, ficando careca, recebendo tantas graças, ela ainda esta lá. A tal da tristeza.
Não sei ainda o que é. Só sei que desde que voltei da Índia, minha vida está toda desencaixada, não me sinto mais adaptada ao grupo que vivia, não me sinto mais localizada na cidade que vivo, não gosto do clima, não tenho vontade de sair, quando saio tenho feito um esforço gigante, não tenho tido vontade de conversas aleatórias com as pessoas, não tenho vontade de fazer o tempo todo. Minha vontade é ficar parada. Tenho respeitado à medida que posso, e quando fico parada as vezes a tristeza vem e me assola e me faz muitas perguntas profundas, como quem diz: Quem é você? O que você quer da vida? Pra onde você quer ir? Daonde vem essa dor? O que ela quer dizer? Simplesmente não tenho todas as respostas ainda. As vezes tenho vontade de me cobrir de novo fazendo coisas, mas como não tenho mais forças para colocar novas máscaras, Graças a Deus!, eu fico com ela, muitas vezes reclusa dentro de casa e dentro de mim mesma.

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Sinto que é chegado o momento de olhar pra isso e me permitir sentir isso. Uma amiga linda me diz: Não lute contra, deixe a dor ficar aí onde está, só sentindo você vai poder se libertar. Tenho sentido, não é nada desesperador e muito menos depressão, tenho total consciência desse processo. Mas como nunca me permiti isso antes, tenho a tendência de querer logo me livrar tentando entender, racionalizar, mas, nem analisar mais eu consigo. Chegou o momento de não entender nada, simplesmente permitir sentir, acolher e ficar na minha, respeitando os sinais da alma que me dizem o que e quando fazer.
É tempo de não fazer, é tempo de sentir. Estou como o outono, permitindo as folhas caírem, uma por uma. Chegou a vez da misteriosa dor cair, pode ser que eu nem saiba o por quê, pode ser uma dor de alma de milhões de existências, pode ser algo inexplicável.
Escolho confiar na minha essência e deixar essa bagunça acontecer, deixar as folhas forrarem o meu chão, essas folhas que serão o adubo do amanhã, o ninho que nunca tive. Essa desordem dentro da ordem mais bonita que é a vida. Nada é certo e muito menos errado, não tem padrão, não tem um caminho só, não tem que nada. Aliás a expressão TER QUE, está sendo retirada do meu vocabulário, porque uma coisa aprendi e já tenho colocado em prática, eu não tenho que nada, eu apenas sou o que eu sou, aqui e agora.